Por trás das câmeras... e dos tecidos

Atualizado: Mai 15

O figurino tem um peso importantíssimo na concepção geral dos filmes, teatros e qualquer outro tipo de atuação, pois é através dele que o ator vai personificar, de fato, o personagem, onde ele representará uma história entre pessoas e tempos, dando vida ao lugar e ajudando a ambientar a cena que o cerca.

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Fonte: https://howtobeafunnygirl.files.wordpress.com/2013/02/5663_d019_00367.jpg

Por isso o figurinista faz parte do departamento de arte, onde é responsável por interpretar e idealizar a criação de um projeto, que deve estar em harmonia com toda a concepção visual do filme, desde o cenário até a fotografia.


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Mas afinal, qual é a importância do figurino?

Desde os primórdios os homens se vestem para viver um personagem utilizando adereços que representavam seus espíritos. O homem praticava um ato teatral cuja transformação só era possível por causa da vestimenta que representava os poderes mágicos invocados naquele ato.


Dentro do conjunto do espetáculo, o figurino é essencial para o espectador a medida que complementa e guia a sua compreensão, pois tem um efeito semelhante ao da caracterização, considerada por alguns como um prolongamento do próprio vestuário.


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“É a máscara que esconde o indivíduo-ator. Protegido por ela pode despir a alma até o último, o mais íntimo detalhe” (STANISLAVSKI, 1983, p.53).

Girard e Ouellet (1980, p.69) explicam o figurino com base na sua existência material, que é a de elementos concretos, roupas e acessórios que vestem o corpo. Sendo completada por Silva (2005), quando afirma que figurino é aquilo que cobre a pele do ator enquanto este está em cena e suas funções variam de acordo com a ideia da encenação a que está submetido. Entretanto, o figurino pode ser visto como símbolo de um elemento para a narração de uma história.

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Fonte: https://br.pinterest.com/pin/201747258279611294/

A cenografia emoldura o espaço e o figurino, por sua vez, o personagem, dando-lhe as características necessárias para a construção de uma identidade, onde essa constrói em conjunto as formas e cores que intervêm o espaço. O figuro tem a importância de dar uma nova personalidade ao ator, pois ao vestir a roupa, deve-se encarnar o personagem com suas características e hábitos, dando vida ao um novo ser.


Para esta narração, cada projeto exige um estudo específico de cada personagem, buscando sua essência e suas características a serem transmitidas na vestimenta. No teatro, a cena é vista em sua totalidade e tridimensionalidade, ao contrário dos meios filmados. Muitas vezes, a distância entre o palco e o público é grande e por consequência, o figurino teatral deve apresentar-se bem marcado para que possa ser enxergado com clareza pelos espectadores.

Como resultado, o figurino teatral geralmente apresenta-se muito contrastado com estampas e detalhes aumentados, sendo propositalmente exagerados já que os pequenos detalhes podem não ser vistos devido à distância. Os acabamentos não precisam estar perfeitos, podendo-se aproveitar para utilizar tecidos mais baratos, e devendo-se preocupar mais com o que produz efeito à distância.


O design de figurinos no mundo cinematográfico

O prazer e a responsabilidade de construir uma atmosfera no espetáculo por meio da articulação dos signos visuais é responsabilidade do cenógrafo, do profissional da iluminação e do figurinista. Esses três profissionais desenvolvem juntos um projeto onde cada um contribui com a sua parte na construção do grande espetáculo.


Podemos observar este trajeto na carreira da figurinista Ruth E. Carter, que ganhou o Oscar 2019 na categoria de Melhor Figurino no filme Pantera Negra. O filme conta a história de um herói africano que vivia em um país isolado, cercado de uma tecnologia extremamente avançada, onde após a aparição de um vilão carregado de mágoas e cicatrizes, a segurança da nação é posta em jogo.


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Mais do que um filme de super-herói, Pantera Negra discute temas importantes como o racismo estrutural velado, a emancipação feminina e a ajuda ao outro, onde todo esse contexto é transmitido através do figurino e da cenografia.


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Fonte: https://www.blogs.unicamp.br/ciencianerd/wakanda/

É neste contexto que entra o design de figurino, com uma pesquisa a fim de entender melhor os costumes e conceitos projetados pela equipe, que deve ser transmitido através de cores, formas e texturas. Para o filme Pantera Negra, Carter se apropriou do passado para criar o futuro através do estudo de diferentes tribos africanas.


A roupa tem um poder de expressão, pois ao observa-la, a primeira impressão que temos é a forma com a qual está sendo vestida. Quando um trabalho é bem realizado, o figurino passa despercebido, pois ele incrementa o enredo da história, e esta é a função do figurino, dar feição a um personagem de forma natural, complementando a sua personalidade.


Para chegar a este resultado, Carter utiliza como referência africana as texturas que lembram a escarificação, utilizando adornos como os anéis no pescoço e nos braços, sendo estes inspirados na tribo Ndebele. No figurino, a predominância da cor vermelha foi inspirada dos Massai, sendo inserida a cultura africana no contexto da fantasia e ficção cientifica.


Sendo assim, para o desenvolvimento de um figurino não existe a necessidade de uma copia fiel de um período ou cultura, mas sim entender o contexto social na qual está inserida e transmiti-lo através de elementos que resgatem a sua memória.


Para quem se interessar mais sobre o assunto, a série da Netflix Abstract: The Art of Design tem um episódio dedicado a Ruth Carter, onde ela explica todo o processo do design de figurino. Acesse clicando neste link.

Fontes:

  • STANISLAVSKI, K. A Construção da Personagem. 4.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983.

  • GIRARD, G; OUELLET, R. O Universo do Teatro. Coimbra: Livraria Almedina, 1980.

  • SILVA, A. J. Para Evitar o Costume: figurino-dramaturgia. Florianópolis, 2005. Dissertação (Mestrado), UDESC, Centro de Artes.

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