O ser professor: vocação ou profissão?

Atualizado: Mai 15


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Uma das razões da prática docente no meio universitário seria o fazer pensar, encontrar soluções para novos problemas e desvendar alternativas diante dos enfrentamentos teóricos e práticos. Mas qual seria então, o objetivo inicial, a motivação de ser professor e dar aulas na Universidade? E principalmente, qual a razão de dar uma boa e instigante aula?


De acordo com Nóvoa (2009, p. 12),

“Ser professor é compreender os sentidos da instituição escolar, integrar-se numa profissão, aprender com os colegas mais experientes. É na escola e no diálogo com os outros professores que se aprende a profissão. O registro das práticas, a reflexão sobre o trabalho e o exercício da avaliação são elementos centrais para o aperfeiçoamento e a inovação. São estas rotinas que fazem avançar a profissão.”

Com base nesta perspectiva, vale enfatizar alguns pensamentos atuais do meio docente, alguns dos quais demonstram apenas preocupação com o domínio do conteúdo e boa comunicação. As exigências da academia atualmente, concentram-se muito em titulações e publicações, mas talvez fosse importante refletir um pouco mais sobre a questão aparentemente secundária no rol de inúmeros problemas com os quais a universidade se defronta: a questão da prática docente no ensino superior e a vocação do professor universitário.


Em meados do século XX, partia-se do princípio que o professor na universidade não precisava preocupar-se com pedagogias. Bastava um bom domínio sobre os conteúdos da profissão e a capacidade de expressar bem esse conhecimento. Entretanto, pesquisadores como Vásquez (1982), Nóvoa (1995; 2009), Tardif (2002), Pimenta e Anastasiou (2008), conduziram a um pensar mais aprofundado sobre a docência, e o fato da mesma assumir diferentes complexidades. Formam-se não apenas profissionais gabaritados para atuar no mercado, mas sim seres humanos, dotados de aspirações, expectativas e muitas vezes frustrações. Transfigura-se então o docente naquele membro que não apenas ensina, mas inspira o aluno a criar sua própria identidade e superar-se como profissional. E sobre isto, Nóvoa (1995, p. 25) escreve que, “A formação não se constrói por acumulação [...], mas sim através de um trabalho de reflexibilidade crítica sobre as práticas e de (re) construção permanente de uma identidade pessoal. Por isso é tão importante investir a pessoa e dar um estatuto ao saber da experiência.”


Em relação a esta proposição, o que faz uma aula ser tão especial? Um bom domínio do conteúdo? Uma boa comunicação, muitas vezes com animação? Uma boa explanação do docente? Ser um bom professor hoje está atrelado ao processo de construção do conhecimento.


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Em outras palavras, em uma mudança de paradigma, em uma nova concepção do que é ensinar e aprender. Conhecimento não é acúmulo de informações, conhecimento não está concentrado somente nos livros, nos relatórios de pesquisa ou na cabeça de alguns poucos iluminados. Conhecimento é uma troca, é um intercâmbio entre diferentes saberes e experiências, e o professor é um condutor desse processo e dessas descobertas.


Com base em experiências profissionais prévias, e em um momento em que o ensino de arquitetura no Brasil, começa a sentir os efeitos da crise econômica, moral e ética que aflige o país, torna-se pertinente no meio universitário formas de reinvenção da metodologia tradicional de ensino. As gerações mais novas, criadas na era da comunicação e do imediatismo, estão ansiosas para explorar os novos caminhos da narrativa arquitetônica. Os estudantes antes passivos em sala de aula, são os que agora demonstram necessidade de interagir e criar sua própria interpretação da arquitetura. Esta perspectiva surge em meio ao debate em torno do ser e fazer docente: Qual será a identidade desse novo professor de arquitetura? Como deve ser um bom docente? Existirá um roteiro didático que possa garantir ao professor universitário alcançar tais objetivos?


Essa reflexão nasceu de questionamentos sobre a prática docente nos cursos de Arquitetura e Urbanismo na atualidade. Ser crítico sobre a própria atuação, e o que se pode fazer com relação as atividades acadêmicas, demandam um desprendimento e constantes indagações, seja sobre as problematizações criadas em sala, as fontes e a forma de utilizá-las, bem como as interações com os alunos. As situações são diferentes, sempre exigindo mudanças de rota por parte do professor, mas nunca sem perder os princípios que o norteiam. Resta saber quantos estão dispostos a esta abertura e entrega ao ofício de ser docente, não somente como um papel a cumprir, não só como formadores de novos profissionais, mas sim como seres inspiradores de novos arquitetos.


“Ser professor é ser paciente e ter o dom de se doar sem esperar nada em troca, somente a sensação gratificante de saber que seu aluno aprendeu [...]” (depoimento anônimo em LUCIANO, Hélio José et al).


Este post é parte de um trabalho acadêmico desenvolvido para a Disciplina Questões de Ensino de Arquitetura e Urbanismo – Programa de Pós Graduação, da Universidade Presbiteriana Mackenzie – ministrado pela Prof. Dr. Ana Gabriela Godinho Lima (http://lattes.cnpq.br/2010070403291740). Para maiores informações sobre a disciplina: https://ensinoau.wordpress.com/)


REFERÊNCIAS

  • FISCHER, Beatriz Terezinha Daudt. Docência no ensino superior: questões e alternativas.

  • Educação, v. 32, n. 3, 2009; LUCIANO, Hélio José–UEL et al. VOCAÇÃO OU PROFISSÃO? REPRESENTAÇÕES DO SER E FAZER DOCENTE; NÓVOA, Antônio (Coord.). Os professores e a sua formação. 2 ed. Lisboa: Dom Quixote, 1995; ______. Professores imagens do futuro presente. Lisboa: EDUCA Instituto de Educação Universidade de Lisboa, 2009; PIMENTA, Selma Garrido. ANASTASIOU, Léa das Graças Camargos. Docência no ensino superior. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2008; TARDIF, Maurice. Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis, RJ: Vozes, 2002; VÁSQUES, Adolfo S. Ética. Rio de Janeiro: Civilização, 1982.

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